Vera Carvalho Assumpção na BAN – Buenos Aires Negra

A BAN é o festival internacional da novela policial que acontece em Buenos Aires todos os anos. Vera Carvalho Assumpção falou sobre cocaína, a rainha das drogas, e como seu uso vem influenciando as novelas policiais, em particular as investigações do detetive Alyrio Cobra.

Buenos Aires Argentina (DINO) 10/25/2016

Este ano, minha proposta sobre a cocaína e sua influência nas investigações do detetive Alyrio Cobra foi aceita na BAN. A palestra se chamou: “Cocaina, la reina de las drogas!

A BAN é um festival de literatura policial que acontece na cidade de Buenos Aires. Além de ser um dos festivais mais importantes de língua espanhola, é um encontro muito arrojado que traz assuntos polêmicos e avançados na área do crime e da investigação policial. Este ano, minha proposta sobre a cocaína e sua influência nas investigações do detetive Alyrio Cobra foi aceita. A palestra se chamou: “Cocaina, la reina de las drogas!

Transcrevo aqui os itens que abordei:

Há dois pontos importantíssimos sobre a cocaína. O primeiro é a droga em si. A farinha! ”La blanca! O efeito que ela traz para o usuário. O segundo são as mudanças significativas que aconteceram no mundo depois que ela começou a ser produzida às toneladas.

Embora existam hoje tantas outras drogas fabricadas em laboratórios, a cocaína sempre foi e continua sendo a rainha das drogas. O primeiro motivo é que ela é uma gasolina aditivada para as exigências do mundo moderno. O segundo motivo é a organização econômica criada para gerir seu comércio.

Quanto ao efeito da droga, sabemos o seguinte: A heroína faz de você um zumbi. A maconha relaxa. A cocaína é a droga performática. Antes que ela faça seu coração explodir, antes que seu nariz se dissolva, antes que chegue a depressão e a paranoia, você se divertirá mais. Com cocaína você é o centro da festa, porque com ela tudo é mais fácil. É mais fácil falar, é mais fácil paquerar, é mais fácil ser simpático, é mais fácil sentir-se querido. Num mundo superpovoado você precisa se sobressair. E a cocaína te deixa apto a ser mais!

O segundo ponto abordado sobre a cocaína é a formação dos cartéis no México. É uma história importantíssima e que está por se fazer. Os cartéis se formaram para levar a droga através da fronteira americana. Na área já se fazia o contrabando de marijuana e ópio. Estas drogas eram lucrativas, mas nada comparado ao volume de dinheiro da cocaína.

Quando Pabro Escobar começou a ter dificuldades para enviar a cocaína aos Estados Unidos, buscou El Padrino que era chefe dos narcos no México. Era ele quem conhecia todos os canais para a entrada das drogas nos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo em que caia o muro de Berlin, Regan e Gorbachov se encontravam para pôr fim à Guerra Fria, em Guadalajara acontecia o encontro histórico entre os narcos para a divisão do território e a formação dos cartéis que continuam até hoje.

A queda do muro de Berlin foi um marco na História da Humanidade. Foi também o anúncio do final da Guerra Fria. Ambos os fatos continuam sendo estudados por historiadores, sociólogos, psicólogos, economistas, etc.. A formação dos cartéis e a expansão da produção de cocaína certamente influenciaram muito mais o mundo moderno do que a queda do muro de Berlin. No entanto há pouca pesquisa sobre o assunto. O livro Zerozerozero de Roberto Saviano, primeiro estudo profundo sobre a cocaína, traça um painel muito preciso de como o pó branco liga as principais praças comerciais do mundo e impõe suas tenebrosas regras, seus códigos morais e exércitos, direta ou indiretamente, a todos nós.

Enquanto zerozerozero mapeia o tráfico internacional da droga, mostra quem são seus personagens (inclusive no Brasil) e revela suas conexões com a economia formal e o mercado financeiro, as investigações do detetive Alyrio Cobra mostram como a cocaína vem influenciando vidas, tanto dos usuários, como dos codependentes, mostram como a droga desagrega personalidades e famílias.

A primeira investigação, PAISAGENS NOTURNAS é uma história que fala de um grupo que tenta recriar sociedades secretas do tempo dos poetas românticos da Escola de Direito do Largo de São Francisco na época de sua fundação (1828), promovendo festas com uso de muita droga. No momento que um dos participantes morre de overdose, vem o problema: que fazer com o corpo?

Na segunda investigação de Alyrio Cobra, RIGOR DA FORMA, que acaba de ter uma nova edição na plataforma KDP, há a mãe, com um sentimento de culpa assombroso. Para ela a filha se droga por que ela falhou na sua educação. Contrata o detetive mais como psicólogo do que como investigador.

Em SERPENTE TATUADA há a menina de programa que conquista homens poderosos, leva-os para motéis e faz com que cheirem. E é com eles alterados, que tira vantagens econômicas da situação.

Na palestra, menciono três filmes que fazem a apologia da cocaína, além da série Narcos exibida pela Netflix, que conta magistralmente a vida de Pablo Escobar.

O primeiro filme que menciono é The Fligh (O Voo), baseado numa história real. Denzel Washington, Whip, é um piloto que durante um voo tem problemas técnicos e, drogado, consegue reverter a situação, praticando uma ousadíssima manobra. A pergunta que fica é: Se ele não estivesse sob o efeito de muita cocaína, teria tido a coragem de fazer a manobra?

Meu Nome Não é Johnny é um filme brasileiro também baseado numa história real. João Estrela foi um dos jovens usuários de cocaína que sobreviveu e conseguiu escrever sobre sua vida. O filme conta sua trajetória de viciado comprando e vendendo cocaína, e promovendo festas espetaculares. Mostra o uso da cocaína por pura diversão.

Em O Lobo de Wall Street, Martin Scortese retrata a vida de Jordan Belfort. O filme é ousadíssimo. No caso da cocaína usada pelos personagens, a pergunta é: No mundo de Wall Street, no stress vivido diariamente, há vida sem cocaína? Há desemprenho exigido sem o pó para dar apoio às transações mais ousadas?

Recordei então o livro: Admirável Mundo Novo. Publicado em 1931, descreve uma sociedade super organizada, onde a servidão era aceitável devido a doses regulares de felicidade química, a droga chamada SOMA.

Olhando o presente, as novas gerações que convivem com uma concorrência que não respeita individualidades, onde é preciso se sobressair a qualquer custo, poderíamos dizer que a cocaína é a soma do mundo moderno?

Seria ela a felicidade química que vai se tornando cada dia mais indispensável para suportarmos o mundo contemporâneo, com exigências quase inalcançáveis?

No caso da soma, parece não haver efeitos colaterais. A cocaína é uma forma de felicidade imediata, de arrojo e inconsequência, mas é como o encanto da varinha mágica da fada da Cinderela. A meia noite o efeito acaba. No caso, a madrasta má volta a dominar a vida e não há príncipe encantado para o final feliz.

Informações de contato